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ARTIGO – Religião cósmica

De   /  4 de outubro de 2017  /  Sem comentários

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A recente resolução do STF, que permite ministrar aulas de religião com caráter confessional nas escolas públicas, motivou muita polêmica a favor e contra. A meu ver, independentemente de dispositivos jurídicos conflitantes, que possam ser encontrados na interpretação da Constituição por membros do STF (Supremo Tribunal Federal) ou da PGR (Procuradoria Geral da República), precisamos respeitar  tanto a liberdade quanto a neutralidade do ensino e da prática de qualquer culto. Mas para isso é indispensável saber o que é religião, como surge, para que serve, o bem ou o mal que possa fazer a uma comunidade.

A faculdade de acreditar na existência de um ser superior, infinito e eterno, criador do Universo, é uma peculiaridade do ser humano desde que seu cérebro evoluiu do estágio de primata ao do “homo sapiens”, quando adquiriu a virtude da curiosidade, o querer saber quem era, de onde veio, qual seria a estrutura da realidade ao seu redor. Os gregos da antiguidade inventaram mitos, histórias fantásticas, na tentativa de explicar fenômenos naturais ou comportamentos existenciais: Poseidon (deus do mar), Eros (deus do amor) etc. Já os judeus do Velho Testamento passaram do politeísmo para o monoteísmo, acreditando num único Deus, Jeová, adorado pelo patriarca Abraão.

Um dos livros da Bíblia, o “Gênesis” (Origem), trata da criação do mundo em sete dias, considerando a Terra uma plataforma fixa nas águas,  entre o Céu e o Inferno, o Sol girando ao seu redor  para aquecê-la. Evidentemente, a expressão “E Deus disse a Moisés” é uma mentira, pois não se pode atribuir a um Deus tamanha ignorância. O presumido profeta, autor do livro presumivelmente sagrado, seguiu apenas a concepção do mundo ao alcance de sua época, posteriormente formulada pelo matemático e astrônomo egípcio Cláudio Ptolomeu (II séc.d. C), o geocentrismo, que ensinava a Terra estar no centro do Universo.

Para responder  a outra indagação fundamental do ser humano, a causa do sofrimento e da morte, o narrador bíblico relatou o mito do pecado original. Adão e Eva teriam comido a maçã, o fruto proibido da árvore do conhecimento do bem e do mal. Nossos  progenitores míticos, culpados por desobediência e orgulho, teriam sido expulsos do paraíso terrestre e condenados a sentir vergonha, parir na dor, trabalhar, guerrear, adoecer, morrer.             A redenção da humanidade deveria ter acontecida com o Novo Testamento pela encarnação do Filho de Deus, Jesus Cristo.

Nenhum estudioso pode negar a existência da figura histórica do nazareno, a meu ver, um dos gênios benfeitores da humanidade, como Sócrates, Darwin, Freud, Einstein. O jovem judeu Jesus Cristo, filho de Maria e de José, após anos de meditação no deserto, foi para a Palestina pregar a substituição da doutrina do Velho Testamento, centrada na superioridade do judaísmo como povo nacionalista em luta secular contra árabes, pelo amor entre todas as criaturas. Não conseguiu este intento porque era apenas uma pessoa humana, sem poderes sobrenaturais. Os milagres acontecem na imaginação, não na realidade. Não consta que ele se proclamasse um deus, nem que fundasse uma nova igreja. Foram discípulos e devotos que o consagraram como líder religioso.

O cristianismo, em todas suas formas, não é melhor nem pior do que outras religiões, todas elas baseadas em crenças alheias ao raciocínio lógico, à verdade histórica, às descobertas científicas. Como disse nosso mestre da ironia, Nelson Rodrigues, “se os fatos contradizem os profetas, pior para os fatos”. É a fuga da verdade que devemos evitar, não permitindo confissão de fé nas escolas públicas. A religião, como a arte, tem por sustento a fantasia, o desejo de criar realidades imaginárias. No dizer do poeta chileno Pablo Neruda, “as religiões foram berço de poesia, // e esta se juntou a elas fertilizando os mitos // colaborando como o incenso no entardecer das basílicas”.

Que tal a sugestão de ensinar as religiões na sua generalidade, como contos de fada, sem facção ou fanatismo, no contexto de outras matérias como Literatura, História, Filosofia, em lugar de gastar dinheiro público com uma disciplina específica e correr o risco de uma doutrinação prejudicial à formação intelectual de nossa juventude? Melhor ainda seria induzirmos a inteligência de nossas crianças para a nova visão do Universo que nos estão oferecendo a física quântica e a teoria da relatividade geral. Einstein superou Newton, como este corrigiu Ptolomeu. Sabedoria é evoluir, não ficar preso ao passado. A ciência está descortinando um novo  Cosmos, onde  não há distinção entre natural e sobrenatural, matéria e espírito, espaço e tempo. Todos os seres, animados e inanimados, de estrutura quântica granular, estão  correlatos por ondas gravitacionais e forças eletromagnéticas. Não existe o vazio, mas apenas o vácuo encobrindo os quanta, que o filósofo grego Demócrito chamava de átomos, minúsculas partículas indivisíveis. Estudar  isso é um fascínio!

* Salvatore D’ Onofrio é Dr. pela USP e Professor Titular pela UNESP.

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  • Publicado: 2 semanas atrás, em 4 de outubro de 2017
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  • Última modificação: outubro 4, 2017 @ 8:00 am
  • Arquivado em: Cultura

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