Carregando...
Você está aqui:  Home  >  Cultura  >  artigo atual

ARTIGO –  Um Live-Action muito forçado

De   /  11 de outubro de 2017  /  Sem comentários

    Imprimir       Email

Parece uma sessão de jogo meio Shadowrun, meio Vampiro: a Máscara, mas não é. Esses dias um projeto de lei 8615/2017 do deputado Marco Feliciano (PSC-SP) foi formulado e visa proibir jogos (de videogame, computador, RPG), shows, filmes e propagandas de TV no nosso país quando profanarem símbolos sagrados. Com isso, jogadores e artistas viverão na pele essa “aventura” típica de ficção pós-apocalíptica de ser caçado por algo que não se sabe ao certo por que, só podendo praticar seus hobbies muito às escondidas. Haja ofuscação para tal!

Um primeiro problema apresentado pelo projeto é o fato de que “profanar símbolos sagrados” é um termo extremamente abrangente. Será que o deputado em questão defenderá todos os símbolos das mais variadas religiões ou somente de sua própria? Um exemplo, segundo o dicionário Aurélio o significado de profanar é “tratar com desprezo as coisas sagradas”. Para o Budismo, a figueira é uma árvore sagrada (pois foi sob uma dessas árvores que Buda atingiu o nirvana), já na Bíblia encontramos uma passagem a qual Jesus amaldiçoa uma figueira fazendo-a morrer. Será que a encenação dessa passagem bíblica em uma Igreja seria considerada profanação de símbolos religiosos e, devido a isso, proibida?

Além disso, já é conhecida a perseguição por parte de diversas denominações religiosas (principalmente das evangélicas) à pratica do RPG. Muito se argumenta, usando-se de casos isolados, que esses tipos de jogos influenciam jovens a cometerem crimes, suicídios e até sacrifícios humanos reais. Boa parte dessas denominações chegam a dizer que os jogos sofrem influências de forças malignas que agem sobre a vida dos jovens que se enveredam por eles. Enquanto isso diversos jovens dessas denominações têm sido privados dessa – por que não dizer – benção que é o RPG.

O certo é que quem busca praticar um crime usará como bandeira qualquer desculpa: amor, (in)justiça, futebol, religião e até mesmo o RPG. Casos de polêmicas envolvendo o RPG no mundo foram conhecidos e até mesmo ridicularizados. Em meio à febre dos livros-jogos na década de 80 no Reino Unido, pais de leitores-jogadores afirmavam histórias dignas de filme de terror B: seus filhos adquiriram a marca do demônio (removida ao queimar o livro de RPG que tiveram contato), agentes do mal estavam por trás da indústria do RPG (já que a filial estadunidense da Games Workshop, uma das maiores indústrias de games do mundo, sitiava-se na 666th Fifth Avenue) e até crianças levitavam durante a leitura desses perigosos livros. Do outro lado, pais agradeciam os autores desses livros interativos por terem milagrosamente aflorado o gosto pela leitura a uma geração que já não se interessava mais por ficção científica e fantasia. Também, pudera! Pagar algumas libras, ler, divertir-se e ainda sair pelos ares…quem não se interessaria?

No Brasil, casos raros de mortes com jovens (supostamente) incentivados pelo RPG em Minas Gerais e Espírito Santo também foram palco de discussões, numa época que o jogo já era bem conhecido pela mídia. E, como sempre, muita polêmica criada e o RPG vitorioso no final.

Já estão mais do que provados os inúmeros benefícios que esse misto de jogo, interpretação e competição na qual todos saem vitoriosos traz aos mais jovens: estimula o aprendizado do inglês, do desenho, da produção textual, da leitura dos clássicos, do interesse pelas mais diversas áreas do conhecimento. Basta uma busca rápida na internet para ver o quanto a academia valoriza o RPG nas diversas áreas de estudo. O RPG é o único jogo permitido pela NASA, já que não promove competição a qual pode gerar disputas de ego ou brigas entre seus tripulantes, mas sim relaxa, distrai, diverte e lhes mostra a importância da cooperação. Nos Estados Unidos, uma pesquisa relatou que há mais acidentes causados por ataques de cães da raça Yorkshire do que por razões RPGísticas.

Ao mesmo tempo em que certas denominações insistem em combater a prática dos jogos outras têm se usado deles para passarem sua mensagem. É o caso de um pastor presbiteriano que passou a jogar Dungeons & Dragons – considerado o primeiro jogo 100% RPG – com os jovens de sua igreja e os amigos deles. Ao longo do jogo ele procurava sempre passar uma mensagem voltada para a vida dos jovens e usava de metáforas das situações do jogo relacionadas com a Bíblia e problemas cotidianos. Essa prática do pastor ajudou a unir os jovens e fazê-los entender melhor várias dúvidas que tinham sobre as situações que enfrentavam em suas vidas.

A questão é que a maldade e a profanação não estão em jogo algum, e sim no coração de cada ser humano. É inegável o fato, por exemplo, de que a Bíblia já transformou a vida de diversas pessoas pelo mundo, mas também é inegável que em sua defesa diversas mortes também foram causadas. Isso não quer dizer, porém, que a Bíblia é um objeto nocivo e deva ser proibido.  Nocivo é uma sociedade do século XXI ainda conhecer polêmicas do século passado atuando e ameaçando a ficção e a fantasia que os jovens tanto apreciam ao invés de incentivá-las.

– De         Oscar Alejandro Fabian D Ambrosio – ACIAdd contactBloquear contato

* Pedro Panhoca da Silva é mestrando em Literatura do programa de Pós-Graduação em Letras da Unesp – Câmpus de Assis.

    Imprimir       Email
  • Publicado: 7 dias atrás, em 11 de outubro de 2017
  • De:
  • Última modificação: outubro 11, 2017 @ 8:07 am
  • Arquivado em: Cultura

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você pode gostar também...

Estudantes de Rondônia são incentivados a novas descobertas tecnológicas

leia mais →