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O que eles sabem sobre segurança pública?

De   /  14/03/2018  /  Sem comentários

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O governo federal anunciou o empréstimo de quarenta e dois bilhões de reais para investimentos em segurança pública. Notadamente, este valor, que deverá ser dividido entre cidades e estados demonstra a preocupação política com o atual cenário social no qual estamos “todos” inseridos.

Esta proposta pode refletir no imaginário dos cidadãos brasileiros a “ideia de segurança e tranquilidade”, ou melhor, projetos nos quais, basicamente, haverá o conforto e a ilusão de se eliminar os grupos sociais indesejados. Para Bauman (2013), em seu livro sobre vigilância líquida, nesta forma, surgirão processos de estereotipia e medidas de exclusão; rótulos em que haverá o endossamento de todos nós, nos tornando “compulsivos, obsessivos e viciados construtores da ordem” e, de toda uma gama de formas de controle social.

Acredita-se nas medidas destas políticas públicas emergenciais que, diante da impotência dos cidadãos, bombardeados diariamente com cenas que provocam medos, toda e qualquer forma de um sistema de vigilância é bem vista por todos. E, é neste cenário, que a passagem do livro 1984 de George Orwell -“Guerra é Paz, Liberdade é Escravidão, Ignorância é Força” pode ser enquadrada: realidades distorcidas para serem reconstruídas. São as distopias presentes em discursos utópicos.

Neste sentido, para além da ideia de utopia e distopia, acredito que nós, cidadãos, estamos submetidos ao conceito da Retrotopia, obra póstuma de Bauman. Este novo conceito explica que nossa atual sociedade está desiludida, não vê esperança em qualquer das atitudes no que se refiram as políticas e aos seus representantes.

Todas as formas de controle utilizadas na atualidade se desmancham e ou se desfazem, não há garantias de certezas, de efetividade e ou de eficácia; por mais que se faça parece que não é alcançado o objetivo primeiro – segurança. Ora, todo o sistema de segurança significa investimento, seja em tecnologia ou em recursos humanos, será necessário fazer estudos e pesquisas para se pensar melhores alternativas das que até agora foram pensadas. Parece-nos, sempre, mais do mesmo.

Os economistas, em especial, Steven D. Levitt e Stephen J. Dubner, no livro “Freaknomics: o lado oculto e inesperado de tudo que nos afeta”, apresenta cenários estarrecedores e que faz, muito, muito sentido ao explicar certas verdades que acreditamos como únicas. Apesar de criticados, entretanto, se conseguirmos ir além daquilo que passamos uma vida inteira acreditando como única forma de pensarmos a sociedade, talvez possamos ter novos olhares sobre os velhos problemas.

Especificamente, no capítulo “Onde foram parar todos os criminosos”, o autor apresenta a política de Nicolae Ceausescu, ditador romeno que proibiu métodos anticoncepcionais, educação sexual e, também do aborto; instaurou a polícia menstrual, para averiguar a gravidez das mulheres e, se negativo, teriam que pagar altos impostos sobre a não gravidez. O propósito era aumentar a demografia populacional e terem mais pessoas trabalhando para o governo. O resultado desta política espúria foi que “as hostes nascidas após o banimento do aborto viriam a se sair pior sob todos os aspectos possíveis: levariam piores notas na escola, teriam menos sucesso no mercado de trabalho e mostrariam, também, mais propensão a se tornar criminosas” (LEVITT & DUBNER, 2005, p.120).

No mesmo capítulo, apresentam outros dados, sobre violência e criminalidade nos EUA, especificamente em Nova York, as políticas públicas adotadas pelo prefeito Rudolph Giuliani e seu Secretário de Segurança William Branton. Desenvolveram várias frentes de atuação para diminuir os índices, altíssimos, de criminalidade, desde a utilização de drogas a de destruição do patrimônio; a tolerância zero a partir da Teoria da Janela Quebrada, concebida pelos criminalistas James Q. Wilson e George Kelling; trouxeram a queda dos índices. Entretanto, foram os estudos de pesquisadores com os dados da vida de americanos e de outros países, inclusive da Romênia, que analisaram e demonstraram que “nas situações em que o aborto era negado a uma mulher, ela em geral se ressentia do filho, deixando de proporcionar para a criança um lar saudável. Mesmo descontando os fatores renda, idade, instrução e saúde da mãe, esses pesquisadores concluíram que tais crianças também eram mais propensas a se tornarem criminosas” (LEVITT & DUBNER, 2005, p.139). A partir destes estudos foi autorizado o aborto e foi percebido que:

A criminalidade continuou a cair à medida que uma geração inteira alcançou a maioridade, dela excluídas as crianças cujas mães não haviam querido pô-las n0 mundo. O aborto legalizado resultou num número menor de filhos indesejados; filhos indesejados levam a altos índices de criminalidade. […] Talvez seja mais cômodo acreditar no que dizem os jornais, ou seja, que a queda dos índices de criminalidade deveu-se a um policiamento brilhante, a um controle inteligente de armas e uma economia emergente. (LEVIT; DUBNER, 2005, p.142)

Em pleno século XXI, os homens têm decidido o que deve ser escolha da mulher. Há estudos que apresentam altos índices de aborto, principalmente nas classes médias e alta. Nas de classe baixa não há escolhas. Não estamos, por meio deste texto, nos colocando a favor do aborto, mas a uma política pública que ofereça as condições para que a mulher decida o que ela quiser em relação, principalmente, ao seu corpo e as decisões que devem passar longe das decisões religiosas e políticas partidárias.

Desta forma, eu encontro nestes autores, alguns caminhos que podem parecer um ataque a moralidade ou às crenças religiosas, algo que não é; porém me chama à responsabilidade de que precisamos nos unir para ter a coragem de pensar nossas verdades sob outros prismas.

Atuar na área da educação nos exige coragem; inclusive de denunciar, a crueldade com a qual encontramos muitas crianças “abortadas” pelo nosso sistema político, social, econômico e cultural. Entre o que vivemos e os dados que temos destes autores, demonstramos também a fragilidade de nossas esperanças, e a tal da retrotopia.

Não se deseja por meio deste texto atitudes salamônicas ou políticas de eugenia, o que se deseja é contribuir para que as novas políticas a serem implementadas tenham estudos, pesquisas de técnicos e especialistas para além das políticas partidárias e ou religiosas. Que possamos pensar qual é a Nação que queremos, ou se vamos continuar a proliferar augustamente “Ai que, preguiça!” do nosso anti-herói Macunaíma, de Mario de Andrade. Lembrando que “ai que” em tupi guarani, significa preguiça, portanto: “preguiça, preguiça”.

Enfim, a pergunta maior:

– Mário (de Andrade), após quase cem anos da Semana de Arte Moderna, continuaremos os mesmos discursos, por querermos ser macunaímas?

Eliana Curvelo, Professora e Arte Educadora, é mestre em Educação Escolar pela Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara.

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  • Publicado: 3 meses atrás, em 14/03/2018
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  • Última modificação: março 14, 2018 @ 8:40 am
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