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Congresso brasileiro pode ter ‘bancada marcial’ na próxima legislatura

De   /  07/06/2018  /  Sem comentários

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Na democracia brasileira, militares ora discutem não ‘se’, mas por qual via intervir, por assim dizer, nas instâncias do poder

No dia do julgamento do Habeas Corpus preventivo do ex-presidente Lula no Supremo Tribunal Federal, no início de abril, o decano do STF, Celso de Mello, passou um pito em plenário sobre “declarações impregnadas de insólito conteúdo admonitório claramente infringentes do princípio da separação de poderes”. O recado era para o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, que na véspera do julgamento publicara no Twitter mensagens que foram entendidas como ameaças principalmente a uma titubeante Rosa Weber. Chamou a atenção também, naquela feita, uma outra resposta a Villas Bôas, na forma de um tweet:

“Caro Comandante, Amigo e líder receba a minha respeitosa e emocionada continência. Tenho a espada ao lado, a sela equipada, o cavalo trabalhado e aguardo suas ordens!!”.

O autor da mensagem foi Paulo Chagas, que, além de general da reserva, é hoje pré-candidato do PRP ao governo do Distrito Federal. Chagas está agora mesmo empenhado em levar ao seu palanque, se possível com exclusividade na corrida pelo Palácio do Buriti, o candidato à presidência da República Jair Bolsonaro. Trata-se de um general disputando com terceiros o apoio de um capitão.

Sobre a greve dos caminhoneiros, em entrevista dada na semana passada aos jornalistas do programa CB Poder, do Correio Braziliense, Paulo Chagas disse que, em vez de manifestação, ele prefere chamar de “demonstração”. Demonstração de quê? O repórter não fez essa pergunta, mas o próprio general, mais esse, encarregou-se de indicar a resposta, sempre via Twitter:

“Temos que ir às urnas, sejam elas quais forem e, se houver falcatrua, os caminhoneiros já nos ensinaram o que temos que fazer!!”.

Forças Armadas ‘lisonjeadas’

Na última quinta-feira, 31 de maio, na “Marcha Para Jesus” em São Paulo, o capitão Bolsonaro explicou, sobre a palavra de ordem que saiu dos piquetes caminhoneiros e invadiu muitas cidades brasileiras: “Eu nunca defendi intervenção militar nenhuma, nunca disse isso. Se um dia um militar chegar ao poder, será através do voto. É essa a minha posição”.

Poucos dias antes, Janio de Freitas intitulava assim sua coluna, uma das mais conceituadas da imprensa brasileira: “A situação provocada pelos caminhoneiros se ajusta ao que Bolsonaro diz e representa”.

De fato, o clima regressivo vivificado pela greve dos caminhoneiros, mas já no ar desde antes, fruto do descrédito na política – com tanta incompetência, corrupção e bateção de cabeça civil, por assim dizer –, parece deixar muitos militares (sobretudo aqueles a quem o próprio general Villas Bôas se referiu há não muito tempo como “reserva pró-ativa”) à vontade para discutir não “se”, mas por qual via começar a intervir mais diretamente nas mais altas instâncias do poder. Ou, conforme trocou em miúdos, em entrevista à Folha, outro general da reserva, Augusto Heleno:

“É lógico que as Forças Armadas se sentem lisonjeadas pela credibilidade que essas faixas demonstram, mas têm plena consciência de que esse não é o caminho. O caminho são as eleições que vão acontecer”.

É esse também o entendimento de um outro general da reserva — mais um –, esse cotado para compor a chapa de Jair Bolsonaro no posto de candidato a vice-presidente da República.

Um upgrade na ‘bancada da bala’

Trata-se de Hamilton Mourão, o ex-chefe do Comando Militar do Sul que em 2017 ameaçou o país com intervenção militar caso o Judiciário não fosse capaz de sanear a política. Recém-filiado ao PRTB, Mourão é tido hoje como um dos maiores divulgadores da chamada “Frente Militar”, uma tentativa de “intervenção eleitoral” que já conta com cerca de 70 pré-candidatos oriundos das Forças Armadas e que pretendem disputar cargos nas eleições de outubro, postulantes à Câmara e ao Senado, governos e assembleias estaduais, para não precisar lembrar da presidência da República.

Em recente entrevista à revista Veja, Hamilton Mourão disse que a plataforma da “Frente Militar” deverá ser montada de dentro do Clube Militar, que todos os anos celebra com regabofes o aniversário do golpe de 1964, evocado ali como “revolução”, e cuja presidência ele, Mourão, acaba de assumir após ser eleito “por aclamação”. Entre as “propostas” da frente, em linhas gerais, estarão desde o combate à corrupção até o resgate de “princípios, valores e tradições” que estão sendo, segundo ele, “jogados na lata do lixo”.

Candidatos de origem militar não são propriamente uma novidade. A novidade é a “frente”, o bloco. Em uma outra entrevista, ao UOL, Mourão afirmou: “Existe um termo usado na Brigada Paraquedista que diz que aves da mesma plumagem voam juntas. Esse grupo militar que eventualmente for eleito vai ser uma bancada, apesar de pertencer a diferentes partidos”.

“Vamos chegar pelas urnas”, disse, por fim, descartando o molde de 1964, mas como quem diz que há outros moldes na praça para “surfar” o mau clima atual.

Diante da liberação sem maiores constrangimentos ou pudores de apelos à derrubada da democracia, nas palavras da coluna seguinte de Janio de Freitas, pode-se dizer que uma eventual “bancada marcial” na próxima legislatura do Congresso Nacional seria uma das que terão maior, digamos assim, poder de fogo. Seria um upgrade na bancada da bala – downgrade na República Federativa do Brasil, “em memória do coronel Brilhante Ustra”.

– Hugo Souza – Foto: Wikipedia / Outlook-live

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  • Publicado: 2 semanas atrás, em 07/06/2018
  • De:
  • Última modificação: junho 7, 2018 @ 9:00 am
  • Arquivado em: Coluna do Dia

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