Egíto cancela visita oficial do chanceler brasileiro ao país

Diplomatas apontam que ato foi uma retaliação às declarações de Bolsonaro sobre embaixada em Israel.

O motivo oficial seria uma mudança na agenda, mas diplomatas apontam que o cancelamento tem relação com as declarações do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) sobre a mudança da embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém, em Israel.

Isso porque, no último sábado, 3, a Liga dos Países Árabes – a qual o Egito faz parte – divulgou um comunicado solicitando que Bolsonaro reveja seu posicionamento sobre a mudança da embaixada em Israel. O secretário-geral da Liga, Ahmed Aboul Gheit, destacou a “boa reputação” do Brasil na comunidade internacional, mas admitiu que os países árabes estão “alarmados” com as declarações.

O cancelamento do compromisso tão próximo à data marcada é visto como um “desconvite”. O Brasil tem uma relação comercial milionária com países árabes, que são importantes parceiros da economia brasileira. Em 2017, o superávit brasileiro foi de US$ 7,17 bilhões, com US$ 13,5 milhões sendo provenientes de exportações de proteína animal para países árabes – que compõem o segundo maior grupo comprador do produto brasileiro.

Carlos Marun, ministro da Secretaria de Governo de Michel Temer, contou à Folha de S. Paulo que espera que Bolsonaro reflita melhor sobre o assunto, destacando o bom relacionamento do Brasil com a comunidade árabe. “Essa é uma opinião pessoal: espero que o presidente eleito reflita sobre esse assunto antes de tomar uma decisão. Não vejo nada que pode vir de positivo nisso”, apontou Marun.

Nos últimos anos, os brasileiros precisaram lidar com a Operação Carne Fraca e a greve dos caminhoneiros, mas manteve os países árabes fiéis ao produto, conforme destacou Rubens Hannun, presidente da Câmara de Comércio Árabe Brasileira.

Receio chinês

Não foi a primeira vez que as declarações de Bolsonaro geraram reação da comunidade internacional. Pouco mais de uma semana após ser eleito, Bolsonaro, precisou lidar com um editorial do China Daily, um dos principais jornais da China, controlado pelo Partido Comunista – que comanda o país.

No editorial, o China Daily destacou que as promessas de mudança de Bolsonaro têm gerado especulações sobre as relações entre China e Brasil, que são parceiros comerciais próximos. Em 2016, como deputado federal, Bolsonaro afirmou que a China queria controlar o Brasil. Chamando-o de “Trump Tropical”, o jornal aponta que o receio do mercado chinês com o presidente eleito é “pertinente”.

“Bolsonaro soou menos que amigável para a China na campanha. Ele retratou a China como um predador que busca dominar setores-chave da economia brasileira. Portanto, não é de surpreender que as pessoas estejam se perguntando se Bolsonaro, assim como o presidente dos Estados Unidos, vai dar um golpe substancial no relacionamento China-Brasil”, aponta o texto.

Na última segunda-feira, porém, Bolsonaro fez questão de reduzir as especulações negativas sobre o relacionamento com a China. Em uma postagem nas redes sociais, o presidente eleito revelou que se encontrou com o embaixador chinês, Li Jinzhang. “Muito grato pela consideração”, escreveu o novo chefe de Estado.

Em uma entrevista à Fox News, o embaixador brasileiro em Washington, nos Estados Unidos, Sérgio Amaral, destacou que o relacionamento com a China é muito importante para o Brasil. Ademais, destacou que o rompimento da relação com os chineses, ou o distanciamento do mercado, pode gerar um “prejuízo gigantesco” à economia brasileira.

“A China tem muitos investimentos no Brasil e tornou-se o parceiro comercial mais importante. Mas a diferença na relação entre China e Brasil em comparação com a que a China tem com outros países é que, sempre que dizemos algo, eles aceitam. Isso depende de nós e nós temos de decidir que tipo de política queremos ter com a China. Não tem razão para não continuarmos mantendo isso”, explicou o embaixador.

(Fontes: Folha de São Paulo-Agência Brasil-Agência Anadolu-Arab League (Foto Chanceler brasileiro A. Nunes -: Pedro França/Agência Senado)


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