Ninguém parece frear a onda de desmatamento na Amazônia

PF e força nacional ainda são temidas pelo agronegotóxico

Porto Velho, RO – Na edição da semana passada, o jornal CORREIO DE NOTÍCIA fez uma pesquisa em diferentes locais/fontes, e revela que as invasões e devastações da floresta Amazônica continuam ocorrendo de maneira desordenada e em muitos casos, sem nenhum tipo de fiscalização, e, tudo começou a partir dos governos nos anos 1977 com a entrada de migrantes pelo eixo central de Comodoro (MT) a Vilhena, Cone Sul de Rondônia.

A reportagem retoma os principais pontos de reflexão de um levantamento que traz como tema central o desmatamento ilegal,e que mostra os “posseiros, madeireiros, pecuaristas e plantadores de soja” como protagonistas de “uma devastação que pode contribuir, e, muito, para um futuro sombrio”. Além de mostrar ameaças, assassinatos, furtos de madeira nobre de alto valor no mercado internacional, e, até, a usurpação de terras públicas na última fronteira agrícola do País – a Amazônia Ocidental e Oriental, respectivamente, vem sendo invadidas e saqueadas desde os anos 1947 e há exatos 27 anos por madeireiros, pecuaristas plantadores de soja só em Rondônia.

Em cima dos seus 5.500 quilômetros quadrados, a Amazônia Brasileira tem sentido na pele, melhor dizendo na madeira a ferocidade e a voracidade do Capital sulista e sudoestino rumo à devastação das áreas de florestas ainda mantidas em pé, afirma uma ex-gerente de Licenciamento da Secretaria Estadual do Desenvolvimento Ambiental (SEDAM).

Segundo ela, “o desmatamento em áreas protegidas relacionadas como Unidades de Conservação (UCs) e Reservas Extrativistas (RESEX) avança com a velocidade da luz, vez que os órgãos de controle em nada endurecem a fiscalização por falta de investimentos não só em tecnologia, mas também em capital humano”.

– “Quem ainda resiste em algumas situações aos predadores de florestas em pé são os ativistas ambientais, mas logo são mortos por pistoleiros”, ela revela.

A devastação das florestas é só a ponta do iceberg, para abrir o caminho à grilagem de terras. Ela acontece, muitas vezes, com o consentimento de grupos nativos. O chamado grileiro – e há casos comprovados – age a mando de madeireiros e pecuaristas, que é quem financiam as ocupações. E elas são incontáveis na Amazônia, os grileiros derrubam as árvores e repassam para os madeireiros, depois cortam as terras e repassam aos pecuaristas, contam parte de um grupamento de pessoas arrebanhadas para trabalharem, em fazendas na Ponta do Abunã. Que com medo de sofrer algum tipo de represália, prefere não serem identificados.

Desse modo, havendo resistência por parte dos habitantes das localidades onde há madeira em abundância, e caso os nativos recusem as propostas tentadoras de compras dos manejos das áreas, “do nada aparecem mortas e os barracos incendiados”,assim falava Adelino Ramos a este repórter na antiga sede do Movimento Camponês Corumbiara (MCC), no bairro Socialista.

Adelino, conhecido por “Dinho do MCC” foi protagonista de várias ocupações ilegais de terras públicas e privadas. Ele foi assassinado no Distrito de Vista Alegre do Abunã/RO, por um atirador. Como ele, vários outros ativistas foram assassinado dentro das florestas, por causa dos saques das riquezas florestais (madeira nobre, minérios e essências naturais), indígenas, seringueiros, soldados da borracha, religiosos e de vez em quando, políticos, também, foram alvos de ataques. Os mandantes, geralmente, ficam impunes ou não são descobertos pela polícia.

MADEIRA E CRIME

Sem fiscalização, caminhões cortam as rodovia. A ausência do Estado faz surgir novos polos madeireiros clandestinos em toda a Amazônia, em uma atividade marcada pela ilegalidade. / Foto: Bruno Kelly

A cobiça pelas terras na Amazônia a todo custo, segundo ex-chefes de Coordenadorias Fundiárias do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) neste Estado, “teve início no período de governança dos militares sob o slogan Integrar Para Não Entregar”.

Nos anos 1977-2000, pelo corredor aberto na divisa do Estado com a cidade de Comodoro, em Mato Grosso, só pelo Centro de Triagem de Migrantes (CETREMI) estima-se o registro extra-oficiai no INCRA de cerca de 450 mil, submetidos a cadastros sócio-econômicos. E através de uma segunda remessa, outros 150 mil furando as barreiras de controle pelas fundiárias de Vilhena/RO à cidade de Juína/MT.

Essa movimentação constante teria deixado fora desse controle, grupos incontáveis de migrantes vindos das regiões Sul, Sudeste, Nordeste e parte do Centro Oeste. Essa brecha atraiu, também, entre os “bons migrantes”, os chamados indesejáveis – pessoas com algum problema na Justiça que, aqui, na Amazônia, face suas fronteiras continuarem escancaradas teriam se registrados com outros nomes – foragidos da Justiça, admitiu uma das fontes que tinha acesso aos cadastros do INCRA à época na gestão Galvão Modesto e do ex-Procurador Amir Lando (MDB), ex-deputado federal, ex-senador e ex-ministro da Previdência no governo Fernando Collor de Mello.

À época dos militares, a Amazônia foi alvo de campanhas publicitárias massivas do extinto Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). A maior intensidade se deu no período comandado pelo general linha dura, Garrastazu Médici. “Foi o período de grande quantidade de recrutamento de migrantes, como condição, ocuparem as terras, principalmente, em Rondônia, a qualquer custo”.

– A ordem era desmatar até 80% dos lotes e preservar como floresta em pé, 20% das áreas desmatadas, revelou a mesma fonte junto ao INCRA.

Com as ocupações desordenadas até os dias de hoje, e contando com alguma facilidade junto aos órgãos de controle fundiário e ambiental, no âmbito municipal, estadual e federal, esses setores cedem a Amazônia, desmedidamente, para os avanços econômicos da pecuária, mineração e exploração de madeira. Inclusive, com a aquiescência do governo federal.

Por conta e risco que causam esse tipo de “dominação puramente especulatória em terras de domínio público”, o descaso e o abandono rondam as famílias em projetos de responsabilidade do INCRA, através do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). Abandonados, desde o governo militar (1964-1985), sem cestas de alimentos, o dinheiro do crédito do fomento, habitação digna, projetos agrícolas prometidos pelo Banco do Brasil e BASA e até hoje sem a documentação das terras, permanecem “jogados” ao longo das rodovias federais (BR-364, BR-319 e Transamazônica).

– Foram descartados como animais selvagens, à malária, à fome e à miséria sem a cobertura social e econômica prometidas por sucessivos governantes, entre os quais, Castelo Branco, Costa e Silva, Garrastazu Médici, Ernesto Geisel, João Baptista de Figueiredo, José Sarney, Fernando Collor de Mello (Itamar Franco), Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff, Michel Temer e não se sabe o que irá acontecer, daqui pra frente.

Em busca das riquezas da Amazônia Ocidental e Oriental, madeireiros e pecuaristas sulistas, desde 1977, “nunca temeram as ações de repressão aos crimes ambientais e minerais na região”, atestam remanescentes do Movimento Camponês Corumbiara (MCC). O que ainda consegue freá-los e terem algum temor em não devastar as florestas, “não são os batalhões ambientais do Estado, mas só as operações conjuntas da Polícia Federal e Força Nacional”, disseram.

E, por fim, com o fim das políticas de conservação e preservação das florestas ainda em pé, o governo de Rondônia, por falta de investimentos próprios, deixa de “cuidar das reservas, principalmente, as de Machadinho do Oeste, Cujubim, Vale do Anari e Guajará Mirim”. Juntos, esses municípios reúnem mais de 14 Reservas Extrativistas, atualmente, sem controle em tempo real, e praticamente, devastadas por conta do contraponto político dos órgãos de controle e por causa considerada criminosa de madeireiros, plantadores de soja e pela pecuária – que ainda ocupa ao menos 70% das áreas proibidas para engordar rebanhos clandestinos dentro de Reservas, Parques e de Proteção Ambiental (APP), já desmatados do Vale do Jamari, Zona da Mata, Vale do Guaporé e sul do Estado do Amazonas.

 

 

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