Salve-se quem puder…

Salve-se quem puder…

Teatro do Absurdo, MMA e Bullying no Supremo…

Todo Brasil viu, ouviu e sentiu, nesta semana, através de uma peça de Teatro, quem realmente manda no país, quem faz as leis, quem troca as leis, quem ao seu gosto faz e desfaz os acontecimentos.

Acompanhemos a encenação:

A Pantomima inicia com Marco Aurélio aplicando uma voadora no Presidente, que impetrou uma ação contra os decretos dos governos da Bahia, Distrito Federal e Rio Grande do Sul que determinaram medidas restritivas para o combate à pandemia, como os “toques de recolher”, que são inconstitucionais, pois a lei diz que isso é “prerrogativa do Presidente”.

Mostrando quem manda no país, o Ministro-Deus rejeitou o que pediu o Presidente, disse tudo o que quis e ainda tripudiou:

“O chefe do executivo personifica a União, atribuindo-se ao advogado-geral a representação judicial, a prática de atos em Juízo. Considerado o erro grosseiro, não cabe o saneamento processual”.

E completou:

“Ante os ares democráticos vivenciados, impróprio, a todos os títulos, é a visão totalitária. Ao Presidente da República cabe a liderança maior, a coordenação de esforços visando o bem-estar dos brasileiros”.

Ninguém sabe o que ele quis dizer com isso. Talvez falasse em código ou trouxesse uma mensagem divina ao povo inculto.

O segundo ato abre com Gilmar Mendes, finalmente, fechando o laço que vai enforcar o ex-juiz, ex-ministro, ex-super-herói, Sérgio Moro, o popular “Marreco”. Todo pimpão e lambendo os beições, Gilmar passa a palavra a Kássio Nunes para que este articule um voto favorável à sua tese, o que levaria o ex-juiz ao cadafalso.

Kássio, que é do Piauí, o estado mais pobre da nação, não se fez de rogado: surpreendendo a todos, deu um salto carpado no ar e pulou com os dois pés no peito de Gilmar Mendes, dizendo:

“…que não cabia à defesa de Lula pleitear a suspeição de Moro por meio de um habeas corpus no Supremo, depois que três pedidos semelhantes foram negados nas instâncias inferiores.”

Deu um sopapo em sua orelha:

“…não se pode decidir pela parcialidade de Moro no habeas corpus, no qual o ex-juiz sequer teve a oportunidade de se defender, isso viola o ‘princípio constitucional do direito ao contraditório’.”

Aplicou um murro no olho do “Líder Maior” afirmando ser crime usar as mensagens hackeadas dos procuradores da Lava Jato no julgamento e continuou:

“Tenho que são absolutamente inaceitáveis tais provas, por serem frutos diretos de crimes”.

Pespegou uma dedada no outro olho do “Mais Sábio de Todos os Sábios”, afirmando que permitir o uso dos diálogos obtidos de forma ilícita “seria uma forma transversa de legalizar a atividade de hacker no Brasil”.

Girou e mandou um direto no queixo do “Querido Líder”, levando-o a nocaute e dizendo:

“Não se combate crime cometendo crime. Não podemos errar como se supõe que errou o ex-juiz Sergio Moro, como se supõe que erraram os procuradores de Curitiba” …. “Dois erros não fazem um acerto”.

Resultado: 3×2 para Moro. Jogo terminado. Moro livre. Lula na cadeia…

As “almas sebosas” da Globo News que assistiam e comentavam a cena foram à loucura! Vendo o barco fazer água, começaram a tecer comentários dizendo que “provavelmente Kássio Nunes tinha sido orientado”. E com mais provavelmente e insinuações e mais insinuações, mostravam claramente a torcida do grupo de pseudos-jornalistas da emissora.

Terceiro ato: Cambaleante, depois de cheirar sais, Gilmar Mendes levantou-se. Estava furioso. Com um apito na boca e uma bola debaixo do braço iniciou novo jogo e iniciou também uma nova fase no Supremo: o bullying de Ministro em Ministro!

Gritou “que há, sim, jurisprudência no Supremo em fazer uma revisão criminal por meio de um habeas corpus” e citou exemplos de supostos abusos cometidos por Moro no julgamento de Lula, como a condução coercitiva em 2016.

“Isso, ministro Kassio, com toda a vênia, nada tem a ver com garantismo. Isso é uma indecência”.

Melindrado falou que os Procuradores fizeram interceptação telefônica no escritório de advocacia da defesa de Lula e que havia um conluio entre Moro e os procuradores de Curitiba:

“A combinação de ação entre o Ministério Público e o juiz encontra guarida em algum texto da Constituição?… Isso tem a ver com o nosso processo acusatório? Isso tem a ver com garantismo? Nem aqui nem no Piauí, ministro Kassio!”

E o bullying não parou por aí. Tentando aplicar um corretivo em Kássio, berrou:

– “Nada de conversa fiada sobre hacker ou coisa do tipo. Estamos falando sobre coisas que estão nos autos”.

Lewandowski entrou em cena para ajudar no bullying e disse:

“Quero tornar pública a minha convicção e já externei no voto que o material arrecadado na Operação Spoofing (que levou à prisão dos hackers) foi periciado. Tanto foi que serviu para denúncia e condenação dos hackers. Nenhum dos diálogos foi desmentido. E não seria possível perícia, porque apagaram, deletaram as mensagens”….

“Os áudios são tão evidentes que dispensam qualquer tipo de perícia, no sentido de atestar a autenticidade do material arrecadado na Operação Spoofing”….”Há um princípio que diz que textualmente fatos notórios independem de prova.”

Soou o apito de Gilmar: 30 minutos para descanso, disse “O Glorioso”. E saíram para tomar água e fazer novas articulações.

Quarto ato: o “Inominável Ministro” convoca a atleta Carmem Lúcia.

Carmem é a mesma Ministra-atleta que como Presidente do STF realizou a façanha de ter a casa pichada por vândalos do PT/MST.

O prédio onde possui um apartamento em Belo Horizonte foi pichado de tinta vermelha em 6 de abril de 2018, um dia após a Corte negar um habeas corpus ao ex-presidente Lula e assim garantir a prisão dele. Carmem, Presidente do STF, não se revoltou, nada fez e nada disse.

O jogo agora era outro e Gilmar acionou o VAR do Supremo e o VAR afirmou que tinha revisando o gol que Carmem Lúcia havia feito em 2018. Ela tinha chutado a bola na direção da trave errada, portanto, deveria chutar de novo, agora na trave contrária.

E Carminha não se fez de rogada. Para o espanto de todo Brasil, pegou a bola, levou para a marca do pênalti da outra trave, chutou, marcou o gol e justificou, sem nenhuma vergonha:

“O que se impõe é algo para mim basilar: todo mundo tem direito a um julgamento justo, aí incluída a imparcialidade do julgador”

(…)

“Agora existe uma ‘série de dados’ que não havia no primeiro momento. Isso caracteriza a parcialidade de Moro e, portanto, sua suspeição contra Lula no caso em análise.” Houve, segundo a ministra, “quebra de direito” do ex-presidente”.

Virada de jogo terminado: 3×2 para Gilmar/Lula. Moro no garrote. Lula Livre.

Antes de todos irem dormir o sono dos justos, Fachin reafirmou seu voto, sustentando “que a ação de Lula deveria ser rejeitada e que os fatos de agora já estavam presentes desde 2018, quando o processo começou a ser analisado na Corte” …

“Não há absolutamente qualquer argumento novo em meu modo de ver, apto a justificar o efeito revisional. Não há nenhum elemento inédito nessas alegações. Desde a impetração os elementos são esses que aí estão”, afirmou, contrariando e desmentindo o voto de Gilmar, de Lewandowski e de Carminha, que nem sequer corou.

Fecharam-se as cortinas e esse letreiro apareceu:

“Os vestígios de um inimigo podem se tornar ativos como os de uma doença ou fogueira. Devem, portanto, ser extintos totalmente… Não se deve jamais ignorar um inimigo, achando que ele é fraco. Ele se tornará perigoso no devido tempo, como uma faísca num monte de feno”. (Kautilya. Filósofo Indiano. Século 3 a.C.).

Obs.: Todos os fatos, nomes e falas relatados e descritos no texto são ficção e qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

Foto de Carlos Sampaio

Por Carlos Sampaio*

*Sampaio é Professor. Pós-graduação em “Língua Portuguesa com Ênfase em Produção Textual”. Universidade Federal do Amazonas (UFAM)

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