Entre BRICS e SWIFT 2.0: qual sistema de pagamentos atende aos interesses do Brasil?

Entre BRICS e SWIFT 2.0: qual sistema de pagamentos atende aos interesses do Brasil?

Os EUA fazem desse sistema para atingir objetivos políticos.

Secretário do ministério da Economia do Brasil vê risco na adoção do sistema de pagamentos do BRICS e prefere modernizar o modelo atual. A reportagem conversou com especialistas para saber se um SWIFT 2.0 protegeria as transações econômicas do Brasil no médio e longo prazo.

Nesta semana, autoridades das principais economias do mundo se reuniram com uma agenda intensa de encontros multilaterais na capital dos EUA, Washington. Membros de instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial, o Comitê Monetário e Financeiro Internacional (IMFC) e o Comitê de Desenvolvimento do G20 debateram a recuperação econômica pós-pandemia e, claro, a crise ucraniana.

Durante a preparação dos encontros, o ministro das Finanças da Rússia, Anton Siluanov, enviou carta a seu homólogo brasileiro, Paulo Guedes, pedindo apoio “para evitar acusações políticas e tentativas de discriminação em instituições financeiras internacionais e fóruns multilaterais”.

O ministro russo defendeu que, “agora mais do que nunca, é crucial preservar um clima de trabalho construtivo e a capacidade de promover o diálogo no FMI, no Banco Mundial e no G20″.

O Brasil é sensível a esta demanda e, de fato, se posicionou contra a exclusão da Rússia dos encontros em Washington. Nesta quarta-feira (20), ao contrário de países liderados pelos EUA, o Brasil não deixou a reunião do G20 quando representantes russos foram convidados a falar.

Siluanov ainda elencou áreas nas quais os esforços devem ser redobrados, como o “uso de moedas nacionais para operações de importação-exportação, a integração de sistemas de pagamentos e cartões, nosso próprio sistema de comunicação financeira e a criação pelo BRICS de uma agência de avaliação de riscos independente”.

Em resposta, o secretário de Assuntos Econômicos do Ministério da Economia, Erivaldo Alfredo Gomes, acenou com a necessidade de modernização dos sistemas de pagamento, dizendo que o SWIFT não teria a “agilidade que o mundo precisa”.

De acordo com Milton Pignatari, professor de Economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, o SWIFT não acompanhou o desenvolvimento tecnológico já adotado em tecnologias como o PIX brasileiro.

“O SWIFT informa, mas não concretiza a transação. E essa concretização demora de 2 a 3 dias. Seria importantíssimo ter mais agilidade, para o dinheiro circular mais rápido”, disse Pignatari à Sputnik Brasil.

“A não agilidade da informação aliada ao crédito é realmente uma questão.”

O secretário do Ministério da Economia defendeu a criação de um SWIFT 2.0, mais atualizado às realidades contemporâneas. No entanto, ele não se posicionou de forma favorável à proposta russa de acelerar o sistema de pagamento do BRICS, o chamado BRICS Pay.

Para o secretário, um novo sistema de pagamentos internacionais deveria ser privado e estruturado no “âmbito multilateral, global, e não uma solução específica de alguns países”.

Pignatari concorda, lembrando que um sistema separado para os países do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) poderia contribuir para o isolamento das potências emergentes.

“Na minha visão, isso não traria benefícios para os próprios países dos BRICS. Poderíamos acabar ficando de fora do sistema que é o aporte econômico de toda a estrutura internacional”, acredita o economista.

Perda de credibilidade?

Apesar da insistência brasileira no SWIFT 2.0, um número cada vez maior de países teme o uso que países como os EUA fazem desse sistema para atingir objetivos políticos.

“O problema do SWIFT não é a falta de agilidade, mas o seu uso como arma financeira”, disse o professor de economia da UFAL José Menezes Gomes à Sputnik Brasil. “Não só como ameaça à Rússia, mas a qualquer outra economia que não esteja de acordo com os interesses imediatos da Casa Branca.”

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, acordos multilaterais permitem que o dólar seja utilizado como principal moeda de reserva e meio de pagamentos internacionais. Economistas se referem a essa posição do dólar como um “privilégio exorbitante” dos EUA.

“Existe uma frase muito usada nos EUA que é ‘o dólar é minha moeda, o problema é todo seu’. Ela é parte da diplomacia do dólar, que impõe aos demais países as consequências da política monetária [norte-americana]”, disse Gomes.

Desde o início do século XXI, Washington utiliza esse privilégio como instrumento de pressão econômica para atingir fins geopolíticos. A retirada de bancos iranianos do SWIFT seria um prelúdio à adoção de medidas ainda mais proibitivas contra a Rússia.

O uso considerado indevido do “privilégio exorbitante” leva a uma paulatina diminuição do uso do dólar como moeda de reserva internacional. De acordo com dados do FMI, houve uma queda de 10% no uso da moeda norte-americana como reserva entre os anos de 2000 e 2021.

“Não resta dúvida de que o confisco das reservas internacionais do Banco Central russo e a exclusão de seus bancos do sistema financeiro internacional acabam por impulsionar um processo de desdolarização”, disse Gomes.

No entanto, ele aponta ser necessário que “mais países exportadores de petróleo passem a transacionar em outras moedas que não o dólar […] para abrir caminho para um novo sistema alternativo no futuro”.

Alternativas

presidente do Banco da China, Liu Liange, disse que o uso do SWIFT como arma “nuclear financeira” contra Moscou levaria Pequim a rever suas posições financeiras.

“Precisamos estar preparados”, disse Liu durante o Fórum Global de Finanças Tsinghua, conforme reportou o Global Times.

A China desenvolveu seu próprio sistema de pagamentos transfronteiriços baseado na sua moeda, o yuan, conhecido como CIPS. Em 2021, 80 trilhões de yuans (cerca de R$ 60 trilhões) foram transacionados pelo CIPS, um aumento de 75% em relação ao ano anterior.

Em 2014, a Rússia também desenvolveu o seu próprio sistema de pagamentos, chamado Sistema de Transferências de Mensagens Internacionais (SPFS, na sigla em inglês). De acordo com a presidente do Banco Central da Rússia, Elvira Nabiullina, 52 organizações estrangeiras de 12 países já integram o sistema.

Relatório da agência de crédito francesa Coface, analisado pela Business Insider, aponta que bancos de países como Alemanha, Suíça, França, Japão, Turquia e Cuba estão entre os conectados ao sistema russo. A agência Bloomberg noticiou em março que o governo da Índia considera aderir ao SPFS para realizar pagamentos em rublos de importações de hidrocarbonetos russos.

Relatório da agência de crédito francesa Coface, analisado pela Business Insider, aponta que bancos de países como Alemanha, Suíça, França, Japão, Turquia e Cuba estão entre os conectados ao sistema russo. A agência Bloomberg noticiou em março que o governo da Índia considera aderir ao SPFS para realizar pagamentos em rublos de importações de hidrocarbonetos russos.

A presidente do Banco Central russo acredita que, em contexto de crise geopolítica, a lista de membros do SPFS deve se expandir.

“Antes as ameaças de serem retirados do SWIFT não eram tão grandes, então os parceiros internacionais não estavam com muita pressa para entrar [no SPFS]”, disse Nabiullina nesta segunda-feira (18). “Agora acreditamos que a disposição para aderir seja maior.”

Entre os dias 18 e 24 de abril, autoridades econômicas se reúnem em instituições como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional para os chamados “encontros da primavera”. No dia 21 de abril, ministros da Economia e Finanças se reuniram no âmbito do G20, grupo que reúne as principais economias mundiais.

Fonte: Sputnik

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