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A perfídia veste farda

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A perfídia, em qualquer época ou cenário, é uma mancha que não se apaga. Quando ela brota de instituições que deveriam personificar honra, proteção e lealdade ao povo, seu impacto é devastador. Para muitos brasileiros, foi exatamente isso que se revelou nos episódios que cercaram o 8 de janeiro de 2023, um sentimento profundo de traição, de ruptura de confiança, de abandono moral.

A forma como manifestantes civis e pacíficos foram conduzidos à prisão diante do Quartel-General do Exército em Brasília permanece, para grande parte da população, como símbolo desse rompimento. A percepção de que aqueles que buscavam abrigo, interlocução ou simplesmente presença militar encontraram, em vez disso, portas fechadas e posterior repressão, consolidou na memória de milhões a ideia de que o Exército falhou não apenas em proteger, mas em agir com transparência e retidão.

A repercussão desse episódio não ficou restrita àquele momento. O sentimento de que houve omissão, conivência ou mesmo articulação silenciosa abriu caminho para uma crise de confiança que ainda reverbera. E, no topo da espiral, veio um julgamento político e carregado de tensões promovido pelo STF contra Bolsonaro e seus apoiadores, no qual generais (que foram ministros do governo Bolsonaro) passaram ao banco dos réus, acusados de uma falsa tentativa de golpe. Um julgamento que nasceu de um processo sem provas, mais guiado por pressões políticas e pela narrativa do momento do que por critérios jurídicos sólidos.

A combinação desses fatores formou um terreno fértil para a sensação de que o país atravessa uma era em que instituições se movem menos por dever e mais por conveniência, em que a lealdade, antes inegociável, se tornou moeda de negociação.

A perfídia, porém, não é um conceito trivial. No direito internacional e nas Convenções de Genebra, é considerada uma das mais graves violações éticas em contextos de guerra. Até no confronto armado, em que vidas se perdem e decisões extremas se impõem, há limites. A perfídia, o ato de enganar deliberadamente sob aparência de proteção, neutralidade ou segurança, é proibida porque destrói o próprio fundamento mínimo da humanidade em meio ao conflito.

Quando esse conceito é evocado fora do campo de batalha, aplicado ao relacionamento entre Estado e cidadão, o peso simbólico é ainda maior. Não se trata apenas de crítica política, mas de uma acusação moral: a de que quem deveria defender acabou contribuindo para ferir; a de que quem deveria manter a ordem acabou gerando desordem e desconfiança; a de que quem deveria ser bastião de segurança tornou-se protagonista de um desconforto histórico.

A prisão de seus próprios generais é um dos maiores desafios éticos que as Forças Armadas brasileiras já enfrentaram. Reconstruir a confiança perdida não será obra de notas oficiais, discursos ou cerimônias, porque, quando a confiança se rompe sob acusação de traição, só a verdade firme e pública é capaz de restabelecer o que foi destruído.

E o país, em meio às disputas judiciais, políticas e narrativas, observa e espera que a farda volte a significar honra, não perfídia.

Foto de Henrique Alves da Rocha

Por Henrique Alves da Rocha*

Coronel da Polícia Militar do Estado de Sergipe.

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